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Escolas Literárias

 

As chamadas escolas literárias, entre outras funções, ajudam o leitor a contextualizar a obra. Por este motivo, é importante que o estudante conheça os principais aspectos de cada período da literatura.

- Quinhentismo

- Barroco

- Arcadismo

- Romantismo

- Realismo e Naturalismo

- Parnasianismo

- Pré-Modernismo

- Modernismo

- Pós-Modernismo

 

Quinhentismo:

 

Foi o primeiro movimento literário no Brasil. Em relação aos demais, sua importância é um tanto quanto menos expressiva na literatura, por não apresentar nenhum escritor brasileiro; ou, ainda, nenhum "escritor". Apesar disso, muitos dos maiores vestibulares do país pedem que seus vestibulandos tenham conhecimento desta matéria. Além disso, serve também como conhecimento geral para aqueles que gostam do assunto. O movimento iniciou-se com o "ínicio" do Brasil (sim, eu sei. O Brasil existia antes do descobrimento, mas para a literatura, assim como para muitas outras coisas, sua história começa quando os portugueses chegam ao país). Seu fim foi marcado pela publicação de Prosopopéia, de Gonçalves de Magalhães, que já tinha algumas tendências barrocas.

 

O Descobrimento das Américas marca, antes de mais nada, a transição entre a Idade Média e a Idade Moderna. A Europa vive o auge do Renascimento, o capitalismo mercantil toma o lugar dos feudos, e o êxodo rural provoca o início da urbanização. Houve também, neste período, uma crise na Igreja: o novo grupo dos protestantes contra o grupo dos fiéis católicos (estes últimos no movimento da Contra-Reforma). Durante a maioria deste período, o Brasil era colonizado por Portugal. Os documentos eram escritos por jesuítas e colonizadores portugueses; o primeiro autor brasileiro apareceria, mais tarde, somente no movimento barroco, Gregório de Matos.

 

Barroco:

 

No século XVII, a vida intelectual no Brasil ainda é muito incipiente; por isto, não há espaço para socializar a arte, a vida cultural, torná-la fértil e proeminente. Em outras palavras, não há uma relação sistemática entre autor, obra e público. De qualquer modo, a exploração da cana-de-açúcar na Bahia e em Pernambuco e do ouro em Minas Gerais (século XVIII) propiciou o início da formação intelectual e artística no Brasil.


Contudo, o Brasil não poderia ainda fugir à presença da metrópole, e o que se fazia lá, no caso a arte barroca, se refletia aqui. O crítico Alfredo Bosi fala em “Ecos do Barroco” para o século XVII brasileiro, no sentido de que não ter havido um barroco autêntico na Colônia, devido às diferenças que se configuravam entre Portugal e Brasil. No século XVIII, com a mineração, houve a possibilidade efetiva de se criarem núcleos culturais “como Vila Rica, Sabará, Mariana, São João d’El-Rei, Diamantina, ou (de dar) vida nova a velhas cidades quinhentistas como Salvador, Recife, Olinda e Rio de Janeiro”.
Antes de se fazer um estudo panorâmico do Barroco no Brasil, é preciso ver, ainda que de maneira sumária, as causas históricas que influíram para o aparecimento desse estilo. O Barroco pode ser visto como fruto das tensões ideológicas que mais tarde iriam ajudar a compor o mundo moderno, burguês e industrial. Cronologicamente, manifesta-se entre o Classicismo e o Arcadismo, períodos que, entre outras coisas, privilegiam a razão, a objetividade e a clareza. O Barroco é um movimento artístico, digamos, patrocinado pela Igreja Católica, que procurava com isto, recuperar, trazer à tona sua concepção teocêntrica de mundo, solapada pela Renascença e pelos movimentos protestantes de Lutero e de Calvino.

 

Copérnico, porém, já divulgara sua teoria heliocêntrica, destruindo a concepção medieval de que a Terra era centro do universo. Assim, o homem e seu mundo são depostos de sua posição privilegiada na criação divina para uma concepção em que se revelam a transitoriedade de todas as coisas e a irrelevância do ser humano no Universo. Como conseqüência, o homem, sobretudo o neolatino, entra em crise existencial, é arremessado de um pólo a outro, da infinitude à finitude de todas as coisas, levando-o a se expressar, na arte através de um grande uso de antíteses, o que revela justamente a instabilidade das coisas, a tensão entre o profano e sagrado, a vida e a morte, o ser e o parecer. Por este motivo, a arte barroca caracteriza-se pela quebra de linearidade, pelo jogo verbal entre claro e obscuro, pelo afetado e pelo grande uso de metáforas e hipérboles.


O Brasil, devido a suas características ainda edênicas, estava um pouco aquém de toda aquela discussão ideológica. De qualquer modo, tivemos duas grandes personalidades literárias em Salvador. O poeta Gregório de Matos e o padre jesuíta Antonio Vieira. O primeiro conhecido pela sua veia satírica, que lhe deu a alcunha de “O Boca do Inferno”, não desprezou, contudo, os temas caros à arte barroca através de sua poesia lírico-amorosa e lírico-religiosa, como, por exemplo, a tentativa de fundir os aspectos materiais e espirituais da vida.Seguem dois poemas de Gregório de Matos: o primeiro satírico, o segundo lírico-religioso.


Descreve o que era realmente naquele tempo a cidade da Bahia de mais enredada por menos confusa.


A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar a cabana, e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um freqüentado olheiro,
Que a vida do vizinho, e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
Para a levar à Praça, e ao Terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos pelos pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.
Estupendas usuras nos mercados,
Todos, os que não furtam, muito pobres,
E eis aqui a cidade da Bahia.
Ao mesmo assunto e na mesma ocasião
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida, e já cobrada Glória tal,
e tal prazer tão repentino Vos deu,
como afirmais na Sacra História:
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.


Padre Antonio Vieira, português de origem, alternou sua estada entre a Europa e o Brasil. Teve problemas com a Inquisição devido à sua posição política na defesa dos negros, índios e judeus. Sua arte se revela nos sermões pregados nos púlpitos europeus e brasileiros, reunidos e escritos por ele mesmo nos últimos vinte anos de sua vida. A obra compreende cerca de duzentos sermões distribuídos por quinze volumes, dois quais se destacam os seguintes:


> Sermão pelo bom-sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda – a guerra se revela no caso entre católicos (portugueses) e protestantes (holandeses) – pregado em 1640;
> Sermão de Santo Antonio aos peixes – neste, Vieira posiciona-se contra a escravidão indígena - pregados em 1654;
> Sermão da sexagésima – Trata da arte de pregar – pregado em 1655.


Neles, Vieira demonstra ser um profundo conhecedor da Bíblia, pois mescla passagens do Livro Sagrado com situações contemporâneas, de acordo com estilo conceptista, isto é, organiza o texto de maneira lógica, visando sempre à moralização e à evangelização.


No Sermão da Sexagésima, Vieira discute, a partir da parábola bíblica do semeador, como deveria ser um sermão para que desse fruto. Em termos barrocos, Vieria critica o estilo cultista (quanto mais complexo e engenhoso fosse um texto, melhor ele seria) de poetas de alguns padres, e defende o conceptismo, como estilo mais eficiente e pertinente à fala de um sacerdote. O conceptismo, ao contrário do cultismo, representa o discurso lógico, baseado no raciocínio lógico e na clareza das idéias.


Apenas como registro histórico, a primeira obra com aspectos barrocos, publicada por um brasileiro, foi Prosopopéia, de Bento Teixeira, em 1601, mas sem apresentar qualidades artísticas, ainda que a leitura possa despertar algum interesse pelas referências históricas.


Em relação ainda ao Barroco, registre-se a criação de diversas Academias (século XVIII), importantes para a difusão do Barroco no Brasil e também pela tentativa de se estruturar a vida intelectual na colônia. Dessas, destacam-se as seguintes:


> Academia Brasílica dos Esquecidos – fundada em Salvador em 1724;
> Academia dos Felizes – fundada no Rio de Janeiro em 1736;
> Academia dos Renascidos – fundada em Salvador em 1759.

 

Arcadismo:

 

O Arcadismo surgiu em 1690, em Roma, e tinha como ideário estético o resgate da simplicidade e o equilíbrio da poética clássica greco-latina, retomada anteriormente, durante o Classicismo (século XVI), mas que perdera força durante o período barroco, marcado pelo jogo verbal rebuscado e pelo obscurantismo.


No Brasil, não foi diferente. Aqui, o Arcadismo pôde se desenvolver muito mais em Minas, graças à extração do ouro, que deu à Capitania certa riqueza e propiciou a formação de uma elite intelectual. O marco inicial dessa escola artística no Brasil é a publicação de Obras, de Cláudio Manuel da Costa, em 1768.
Pertenceram à Inconfidência Mineira três dos principais poetas árcades: Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto. Além deles, a escola mineira contou com Silva Alvarenga, Basílio da Gama e Frei da Santa Rita Durão.


Com este grupo, começou-se a formar uma literatura mais propriamente brasileira, mais próxima da realidade local, porém, como era próprio do ideário árcade, sem abandonar os modelos europeus, sobretudo os greco-latinos. Assim, ao lado do Ribeirão do Carmo encontram-se ninfas e faunos como se verifica na Fábula do Ribeirão do Carmo, de Cláudio Manuel da Costa. Na verdade, o poeta árcade encontra-se no limiar de duas culturas, sente-se apegado à sua terra natal, mas ainda possui muito da cultura européia. Veja-se, a exemplo, a Lira LXII, do próprio Cláudio Manuel, de onde também extrairemos elementos característicos da poética árcade.


Torno a ver-nos, ó montes; o destino
Aqui me torna a pôr nestes outeiros,
Onde um tempo os gabões deixei grosseiros
Pelo traje da Corte rico e fino.
Aqui estou entre Almendro, entre Corino,
Os meus fiéis, meus doces companheiros,
Vendo correr os míseros vaqueiros
Atrás de seu cansado desatino.
Se o bem desta choupana pode tanto.
Que chega a ter mais preço, e mais valia,
Que da Cidade o lisonjeiro encanto;
Aqui descanse a louca fantasia;
E o que até agora se tornava em pranto.
Se converta em afetos de alegria.


O eu-lírico, adotando a perspectiva de um pastor, contrapõe os valores da natureza aos do mundo urbano (3ª estrofe). Com isto, o poeta quer dizer que a verdade, a vida real está na natureza, e não na civilização - entenda-se aí, talvez, Europa.


No Arcadismo, o ideal da vida é esse contato com a Natureza. O nome "Arcadismo" deriva de Arcádia, região lendária da antiga Grécia habitada por pastores, de caráter rústico e símbolo da simplicidade e felicidade verdadeira; por isso, o bucolismo é o principal tema da poesia árcade:


O poema deve mimetizar a vida simples e harmônica presente in natura, portanto deve ser simples, objetivo, claro e com muito mais comparações que metáforas, próprias da arte barroca. Outra convenção árcade é o fato de os poetas adotarem nomes de pastores em seus poemas, como pseudônimos. Assim, Cláudio Manuel da Costa era Glauceste Satúrnio; Tomás Antonio Gozaga, Dirceu; Silva Alvarenga, Alcindo Palmireno; e Basílio da Gama, Termindo Sipílio.


Muitas outras questões estão diretamente presas a essa mentalidade bucólica do Arcadismo, como a idéia desenvolvida pelo filósofo francês Jean Jacques Rousseau sobre o "bom selvagem", teoria sobre a corrupção do homem pela sociedade. Tal tema será mais bem desenvolvido depois pelos escritores românticos como o francês René Chateaubriand e o americano Francis F. Cooper e também pelos brasileiros José de Alencar e Gonçalves Dias, que se aproveitam da imagem do "bom selvagem" para a composição da imagem do índio romântico. De qualquer modo, em 1769, o poeta árcade Basílio da Gama já elevava o ameríndio a herói contra a imposição da civilização cristã, através do seu poemeto épico O Uraguai, e Frei da Santa Rita Dirão, em Caramuru, defende a catequização indígena, como única saída de salvação para os povos americanos.


O poema de Basílio da Gama é escrito em cinco cantos, em versos brancos, decassílabos (dez sílabas poéticas) e sem rimas. O poema narra a vitória militar de Gomes Freire de Andrade na guerra contra os jesuítas, que catequizavam os índios em colônias, onde hoje é o Rio Grande do Sul e o Uruguai (o nome Uraguai é devido a um erro de grafia, que, por respeito a uma tradição, se preferiu manter até hoje).


A origem da guerra é o Tratado de Madri (1750), em que Portugal entregaria à Espanha a Colônia do Sacramento em troca da região colonizada pelos jesuítas, conhecida como Sete Povos das Missões. Como os jesuítas se recusaram a aceitar o Tratado, os dois países organizaram uma campanha militar contra os padres entre 1752 e 1756. O Uraguai narra os últimos acontecimentos dessa guerra; escrito para agradar ao Marquês de Pombal, que queria expulsar os jesuítas das colônias portuguesas, apresenta como vilões da história exatamente os religiosos. Ainda que não fosse o ponto central, o fato é que o poema mostra-se simpático aos índios, vistos como vítimas de todo o processo de colonização, o que levou muitos críticos a caracterizarem O Uraguai como precursor da literatura indianista brasileira. Leiamos o trecho mais conhecido do poema, que é a morte da índia Lindóia, noiva de Cacambo, envenenado pelo padre Balda, pois este queria que Lindóia se casasse com Baldetta.


Por sua vez, o poema do Frei de Santa Rita Durão é escrito à Camões, com 10 cantos e oitavas com versos decassílabos heróicos. Narra a história de Diogo Álveres Correia, náufrago português, que foi salvo de ser devorado pelos índios por ter produzido um estrondo com sua arma de fogo. Assim sendo, os índios imaginaram que ele seria enviado de Tupã, deus trovão. Diogo passa a ser então alvo de disputa dos chefes, os quais concedem a Diogo a mão de suas respectivas filhas. Mas Diogo enamora-se de Paraguaçu, pretendida pelo índio Jararaca. E parte com ela para a Europa. Moema, outra índia, morre afogada no mar, tentando alcançar o navio que leva Diogo e Paraguaçu.


Duas outras obras poéticas tiveram fundamental importância para o arcadismo no Brasil, ambas de Tomás Antônio Gonzaga. Uma obra satírica, Cartas chilenas, nas quais o poeta critica alegoricamente Luís da Cunha Menezes, governador de Minas Gerais entre 1783 e 1788, e outra lírica, Marília de Dirceu, em que Gonzaga celebrizou versos amorosos dirigidos à sua amada, Maria Joaquina Dorotéa de Seixas, a Marília. Ainda que seja uma obra poética, uma obra baseada na imaginação do poeta, é possível acompanhar, pela leitura dos poemas do livro, a trajetória do relacionamento entre Gonzaga e Joaquina, inclusive o rompimento, quando o poeta é preso acusado de ser um inconfidente (um infiel à Coroa portuguesa) e expatriado para Moçambique, onde Gonzaga reconstruiu sua vida e casou-se com a filha de um mercador de escravos.

 

Romantismo:

 

Poesia:

 

A liberdade propagada pelos ideais da Independência dos EUA (1776) e da Revolução Francesa (1789) infiltrou-se em todas as áreas da sociedade. Na literatura não foi diferente; os escritores da primeira metade do século XIX procuraram romper com os valores clássicos, com o ideário poético da Era Clássica, visando conquistar liberdade mais acentuada para compor suas obras.


No Brasil, a poesia romântica é marcada, num primeiro momento, pelo teor patriótico, de afirmação nacional, de compreensão do que era ser brasileiro, ou pela expressão do eu, isto é, pela expressão dos sentimentos mais íntimos, dos desejos mais pessoais, diferente do ideal de imitação da natureza presente na poesia árcade. Isto tudo seguido de uma revolução na linguagem poética, que passou a buscar uma proximidade com o cotidiano das pessoas, com a linguagem do dia-a-dia. No poema abaixo, "Invocação do Anjo da Poesia", Gonçalves de Magalhães diz que vai abandonar as convenções clássicas (cultura grega) em favor do sentimento pessoal e do sentimento patriótico.


Castas Virgens da Grécia,
Que os sacros bosques habitais do Pindo!
Oh Numes tão fagueiros,
Que o berço me embalastes
Com risos lisonjeiros,
Assaz a infância minha fascinastes.
Guardai os louros vossos,
Guardai-os, sim, qu'eu hoje os renuncio.
Adeus, ficções de Homero!
Deixai, deixai minha alma
Em seus novos delírios engolfar-se.
Sonhar co'as terras do seu pátrio Rio.
Só de suspiros coroar-me quero,
De saudades, de ramos de cipreste;
Só quero suspirar, gemer só quero.
E um cântico formar co'os meus suspiros.


Em 1836, Gonçalves de Magalhães publica Suspiros poéticos e saudades, com o qual inicia o Romantismo no Brasil. Porém, o primeiro grande poeta romântico brasileiro foi Gonçalves Dias que, com a publicação de Primeiros cantos (1846), definiu os principais temas da literatura do período, quais sejam: nacionalismo e indianismo, saudosismo, religiosidade, além da exploração da subjetividade do eu-lírico.


Gonçalves Dias publicou ainda em vida outros quatros livros de poesia e deixou uma obra épica inacabada, Os Timbiras; em Últimos Cantos estão os seus mais belos poemas indianistas, como "I-Juca Pirama" e "Leito de folhas verdes", que em muito lembra as Cantigas de Amigo do período trovadoresco do medievo português.


A década seguinte (1850) é marcada por um crescente egocentrismo poético, isto é, por uma exacerbação da subjetividade do poeta que procurava fugir da realidade opressora e inibidora. Sendo assim, a evasão torna-se um dos traços marcantes dessa Segunda Geração da poesia romântica. Cultua-se a saudade, há um desprendimento religioso, uma busca frenética do amor e, mesmo, da morte. Os poemas se parecem com devaneios e sonhos. Platoniza-se a relação amorosa. Com isto as realizações são sempre impossíveis, levando os poetas à morbidez e ao tédio.


Meu coração deleita-se... Contudo,
Parece-me que vou perdendo o gosto,
Vou ficando blasé, passeio os dias
Pelo meu corredor, sem companheiro,
Sem ler, nem portar. Vivo fumando.
Minha casa não tem menores névoas
Que as deste céu de inverno... Solitário
Passo as noites aqui e os dias longos;


(Idéias Íntimas, de Alvares de Azevedo)


A idéia-chave dessa geração é a busca da evasão máxima, ou seja, a morte. De fato, os poetas ultra-românticos, em geral, não chegavam aos trinta anos. Destes se destacam o byroniano Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu com o saudosismo da infância (ver poema "Meus oito anos") e Junqueira Freire, que poetizou a vida no claustro em Inspiração do claustro (1855), dando enfoque ao conflito latente entre o dever espiritual e os apelos da carne, os apelos sensuais.


Outro poeta pertencente a essa Geração é Fagundes Varela. Porém, sua poesia se encontra no limiar entre esta Geração e a seguinte, de caráter mais social, embora ainda idealizante, conhecida como Geração Condoreira. Varela é poeta de temáticas variadas: lírico-amorosa, byroniana, lírico-religiosa, nacionalista, indianista, sertanejo. Um de seus poemas mais famosos é "Cântico do calvário", que escreveu ao filho que morreu com apenas três meses de vida. Eis uma estrofe, perceba nela a riqueza de metáforas com que invoca o filho:


Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. - Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, - a inspiração, - a pátria,
O porvir do teu pai! - Ah, no entanto,
Pomba, - varou-te a flecha do destino!
Astro, - engoliu-te o temporal do norte!
Teto, caíste! - Crença, já não vives!


O termo Condoreiro vem de condor, pássaro solitário que atinge grandes altitudes, e que, por isso, tem uma visão mais abrangente do horizonte. Da mesma forma, o poeta deveria ser o guia dos comuns, procurando, mostrar-lhes o caminho correto da justiça, por exemplo. No caso, o grande tema a ser defendido será a abolição da escravatura. E um dos grandes defensores nas letras foi o poeta Castro Alves. Sua poesia é o oposto em relação à de seus antecessores. Seu lirismo se resvala pelo erotismo sem culpa; o mundo moderno, com sua crescente urbanização e tecnologia, não deve ser desprezado. Sua arte mostra-se grandiloqüente e apelativa, visando acordar o povo brasileiro para as questões sociais:
Existe um povo que a bandeira empresta
Pra cobrir tanta infâmia e cobardia...


(...)
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança
Tu, que dá liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha
Que servires a um povo de mortalha!...


(O navio negreiro, de Castro Alves)


Merece registro ainda outro poeta da época de Castro Alves pelos temas republicanos e abolicionistas, Sousândrade, mas que, dada sua linguagem fragmentada e carregado de simbolismo, foi marginalizado pelos críticos, tendo sido recuperado e colocado como precursor da poética moderna no Brasil pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos.

 

Prosa:

 

O romance, chamado de "epopéia burguesa" pelo filósofo alemão Friedrich Hegel, tem sua origem nas novelas de cavalaria medievais e seu marco histórico na publicação de Dom Quixote (1605-15), por Miguel de Cervantes. Porém, somente no século XIX é que este gênero literário alcança prestígio, justamente por narrar a vida e o cotidiano burgueses, diferente da poesia épica em que se narram os grandes feitos históricos e heróicos de uma coletividade ou de um povo, como em Os Lusíadas(1572), de Luis de Camões. O romance, por sua vez, se atém ao indivíduo e a suas ações cotidianas, seguindo a perspectiva individualista da ideologia burguesa.


Seu público-alvo foi, inicialmente, constituído de estudantes, moças e funcionários públicos. E alcançou popularidade graças à relativa simplicidade do enredo e à linguagem quase coloquial, sobretudo naquele que pode ser considerado o primeiro romance brasileiro. A Moreninha (1844), de Joaquim Manuel de Macedo.


Em geral, os romances eram, inicialmente, publicados em folhetins de jornais e revistas importantes; e, como nas telenovelas atuais, a cada final de capítulo, o autor deixava um assunto importante pendente para assim garantir a continuidade da leitura.


No Brasil, o romance cumpriu um amplo papel naquela idéia de formar o sentimento nacional e a própria literatura local. Para tanto, os romancistas, sobretudo José de Alencar, procuraram narrar, tematizar todo o território nacional e os seus respectivos habitantes típicos. Tivemos então o romance urbano, em geral sobre o Rio de Janeiro, como Lucíola, Senhora, A Pata da Gazela, do próprio Alencar, O moço loiro e A luneta mágica, de Macedo e numa outra perspectiva o romance de Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um Sargento de Milícias, cujas personagens centrais pertencem à classe livre do Brasil na época de D. João VI, isto é, não são escravos, mas também não são burgueses, com isto tal romance antecipa elementos narrativos do romance realista-naturalista do final do século.


Houve ainda os romances de temáticas indianista e histórica, que procuravam no índio um heroísmo capaz de determinar as origens da gente nacional que, em contato com o português, teria colaborado para a formação do povo brasileiro. Exemplos típicos são Iracema e O Guarani, de José de Alencar.


Iracema é um romance escrito com base na história colonial brasileira. Martim Soares Moreno, protagonista do romance, existiu de fato, e ajudou a colonizar a região onde hoje é o estado do Ceará, no princípio do século XVII. Tornou-se amigo dos índios Jacaúna e de Poti, os quais também estão no romance. Poti, convertendo-se ao cristianismo, recebeu o batismo com o nome de Antonio Filipe Camarão e se tornou fidalgo.


Há, em Iracema, toda uma simbologia na união da raça portuguesa (Martim) com a raça índia (Iracema), que é a da fundação do Brasil, a fundação do homem brasileiro. No trecho a seguir, veremos como se deu o encontro inicial entre Martim e Iracema.


Há, por fim, os romances de temática sertanista, que revelam a preocupação em descobrir toda a variedade cultural presente no país, além de pretender identificar a origem e as características próprias do ser brasileiro. Esta é, aliás, o foco principal do Romantismo brasileiro. Alencar é o melhor representante desta linha temática com os livros O gaúcho e O sertanejo. Destacam-se ainda O Cabeleira, de Franklin Távora e Inocência, de Alfredo Taunay. É preciso lembrar, por fim, de A escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, em que discute as injustiças causadas pela presença da escravidão e os preconceitos que ela gera.

 

Realismo e Naturalismo:

 

Enquanto no Brasil o movimento romântico se estabelecia como poética dominante, na Europa os intelectuais discordavam do excessivo escapismo e do apelo ao sonho, da fantasia empreendida pelos românticos, devido às novas teorias cientificas lançada em meados do século XIX, como o Positivismo, de Augusto Comte (1798-1857), que, entre outras coisas, pregava a invalidez do pensamento metafísico e a proeminência do pensamento científico, único capaz de dar ao homem os meios para a conquista da felicidade; na esteira, vinham os Determinismos, de Hyppolite Taine (1828-1893), que via o homem e suas características como frutos do momento histórico, do meio e de sua raça, a hereditariedade; e o Evolucionismo, desenvolvido por Charles Darwin (1809-1882), que tratava da seleção natural das espécies.


Estas teorias entraram no Brasil via Escola de Direito de Recife na década de 1870, tendo como mestres e divulgadores Silvio Romero e Tobias Barreto. A classe média, imbuída de ideais abolicionistas e republicanos, valeu-se deste cientificismo como apoio às críticas que fazia às instituições como a monarquia, a Igreja e a família.


Com toda essa agitação filosófica e cultural, o papel do escritor altera-se e é criada nova escola literária: a realista-naturalista. Se até então o escritor, o artista, era alguém que procurava ser uma espécie de porta-voz da nação, cumprindo o papel de difusor da cultura nacional, agora passa a mero observador da sociedade, transportado para a literatura, para o romance o que lhe parecesse típico dos problemas dessa mesma sociedade. Para tanto, ele se nutre do determinismo de um Taine ou do Positivismo de um Comte. Veja-se a exemplo este trecho do prefácio do livro Germinie Lacerteux (1864), dos irmãos Goncourt:


Hoje, quando o Romance cresce e se amplia, quando ele começa a ser a grande forma séria, apaixonada, viva, do estudo literário e da pesquisa social, quando ele se torna, pela análise e pela sondagem psicológica, a História moral contemporânea; hoje, quando o romance impôs a si mesmo os estudos e os deveres da ciência, ele pode reivindicar-lhes as liberdades e a franqueza. (Apud Alfredo Bosi)
À subjetividade desmedida dos românticos, interpõe-se a objetividade científica com que procura, agora, o escritor realista, narrar os romances. O narrador procura ser impessoal, narrar fatos verossímeis que possam ser levados à categorias do típico, do universal. Com isto, diferente do romântico, que propõe uma volta ao passado para identificar a origem do seu povo, de sua nação, o escritor realista se atém ao presente, ao que lhe contemporâneo, visando à análise e à critica da realidade observada.
No Brasil, as duas escolas têm como data inicial o ano de 1881, quando foram publicadas duas obras fundamentais: Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e O Mulato, de Aluísio Azevedo.


Diferenças entre realismo e naturalismo:
Embora estejamos colocando o escritor realista ao lado do naturalista, há algumas diferenças fundamentais entre ambos. Enquanto o primeiro procura ter uma visão global do narrado, perscrutando mesmo a vida psicológica de suas personagens, o segundo atém-se à vida biológica das personagens, isto para comprovar as teorias determinista e darwinista que equiparam o homem, excluída sua capacidade de raciocínio, a um animal.


Por este motivo, os romances naturalistas são classificados como "de tese". Outra diferença diz respeito ao espaço social e à classe enfocada. O escritor realista se volta preferencialmente para a descrição da vida burguesa, e para os problemas que este modo de viver produz ao indivíduo e ao corpo social, por isso a preocupação com o psicológico. O escritor naturalista, por sua vez, busca no espaço coletivo - como cortiços, casas de pensão, escolas - nas camadas pobres da população, a comprovação de suas teses.


Na verdade, é preciso dizer, no Brasil não tivemos propriamente nem realismo, nem naturalismo. Isto devido à nossa condição histórica que não pôde favorecer o aproveitamento total dessas estéticas. Houve, sim, tentativas de se fazer romances naturalistas. Porém, o único digno de nota é O Cortiço, de Aluísio Azevedo, publicado em 1890.


Quanto ao realismo, quem mais se aproximou desta estética foi Machado de Assis que, após alguns romances de teor romântico, lançou um equivalente à escola realista: Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), mas que apresenta diferenças essenciais, como a narração em 1ª pessoa, ao invés da 3ª pessoa, que denota maior objetividade cientifica, demonstrando assim que por mais impessoal que queira ser um romance, há sempre um narrador-autor por detrás dele, conferindo-lhe, portando caráter subjetivo, pessoal. Além disso, a preocupação de Machado não era tanto narrar o presente ou o passado, mas a situação do ser humano.


Além desse livro, Machado de Assis escreveu Dom Casmurro, Esaú e Jacó, Quincas Borba e Memorial de Aires. Machado publicou ainda diversos livros de contos, como Papéis avulsos, crônicas e poesia.
Em relação ao romance, pode-se tomar Quincas Borba como uma sátira justamente ao cientificismo da época, tendo como equivalente à filosofia humanistista sistematizada por Quincas Borba. No conto O alienista, a sátira é ainda mais explícita. Simão Bacamarte, o alienista, lança, sempre a priori, uma nova teoria para explicar a loucura humana, depois sai à cata de tipos que lhe confirmem a teoria, que nem sempre (ou nunca) é realmente comprovável.


O Naturalismo brasileiro contou ainda com os seguintes representantes: Júlio Ribeiro, com o livro A Carne; Inglês de Sousa com O Missionário; Domingos Olímpio com Luzia-Homem; e Adolfo Caminha com Bom-Crioulo. Este último é um interessante livro que explora, de maneira cientificista, o homossexualismo masculino.


Na periferia do naturalismo, encontra-se Raul Pompéia que se aproveitou de técnicas impressionistas e de expressionismo, avant la lettre, para compor o seu grande romance O Ateneu (1888), que trata do sistema educacional do período monárquico.

 

Parnasianismo:

 

Na poesia, a busca da objetividade se deu de modo um pouco diferente em relação à da prosa. O cientificismo não lhe serviu como meio de análise ou de imitação do real, deu-lhe apenas perspectiva materialista. O ideário poético é o de buscar a perfeição formal com fim na própria forma, é a "artepela arte", sem qualquer preocupação com a realidade social. Assim, a poesia se revela, segundo Alfredo Bosi, como "a mimese pela mimese", falando de outro modo, o ideal poético é a descrição de objetos, como vasos, muros, leques ou a própria poesia sempre com apuro formal.


Estranho mimo aquele vaso! Vi-o
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio
Entre um leque e o começo de um bordado.


("Vaso chinês", de Alberto de Oliveira)


Longe do estéril turbilhão da rua
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!


("A um poeta", de Olavo Bilac)


O Parnasianismo brasileiro tem sua inspiração nas antologias do Parnasse Contemporain (Paris - 1866, 1871 e 1876), em que Théophile Gautier e Lecomte de Lisle, através de seus poemas, determinaram o ideário estético parnasiano. O nome vem de Parnaso, monte grego dedicado a Apolo e às musas. Portanto, em essência, busca-se de novo uma comunicação com os textos clássicos e o aproveitamento, como imagem poética, da mitologia greco-latina.


O livro que introduz entre nós esta nova poética é o do poeta Teófilo Dias, Fanfarras, publicado em 1882; porém, a estética se define realmente com três poetas: Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac.


O primeiro é, com Meridionais (1884), o representante mais fiel dessa escola. Já Raimundo Correia oscila entre poema de inspiração romântica (Primeiros Sonhos, de 1879), e os propriamente parnasianos, como os de Sinfonias (1883), mesmo assim resvalando por um filosofismo, e os que revelam já um aproveitamento da estética simbolista, como os que estão presentes em Aleluias (1891). Em relação à poesia de Olavo Bilac, esta apresenta, apesar de pautada pela objetividade parnasiana, variações temáticas como o sensualismo, o teor histórico e patriótico, a velhice, resvalando-se, às vezes, por um tom subjetivo.


Língua portuguesa
Olavo Bilac


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela
Amo-se assim, desconhecida e obscura
Tuba de algo clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


O Parnasianismo teve ainda vários simpatizantes até a década de 20, quando sofreu duras críticas dos modernistas de 1922 e se desarticulou como escola literária.

 

Simbolismo:

 

As razões do aparecimento de mais uma importante escola literária no final do século XIX são as mesmas que deram origem às outras três (Realismo, Naturalismo e Parnasianismo). Porém, esta procurou ser um movimento de contracultura, isto é o simbolismo procurou ser uma alternativa para a presença e influência do cientificismo na literatura. Neste sentido, tenta recuperar o subjetivismo e o espiritualismo românticos. Não desprezou, contudo, o ideário estético do parnasianismo, quer dizer, adotou a preocupação com a forma do poema, mesmo que às vezes fosse uma forma mais livre que a do poema parnasiano.


Em essência, a escola simbolista tem como objetivo negar o racionalismo burguês e sua estrutura sócio-econômica, colocando como alternativa, para uma real compreensão do Universo, a analogia sensorial entre todas as coisas. A idéia, portanto, é estabelecer uma correspondência entre o mundo abstrato (das sensações espirituais) e o mundo concreto (das coisas, da natureza), tendo como uma espécie de conexão a linguagem poética. Assim o poeta seria elevado também a uma espécie de sacerdote, isto é, alguém iniciado que iria decifrar os símbolos do universo, sugerindo-os mais do que explicando-os. Daí o caráter meio hermético da poesia simbolista.


A escola tem sua origem justamente num soneto chamado "Correspondances", escrito pelo francês Charles Baudelaire (1821-1867):


A natureza é templo em que vivas pilastras
Deixam sair às obscuras palavras;
O homem o percorre através das florestas de símbolos
Que o observam com olhares familiares.
Como longos ecos eu de longe se confundem
Numa tenebrosa e profunda unidade
Vasta como a noite e como a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons se correspondem. (...)


Esta sugestão simbolista é essencial na diferença com o parnasianismo e com as outras escolas materialistas. Enquanto estas centralizam sua preocupação no objetivo a ser descrito, aquela valoriza a relação entre sujeito e objeto visando tingir a totalidade de relação do homem com o mundo espiritual e material.


À época, o Simbolismo foi desprezado pela literatura considerada oficial, e de certa forma foi uma tentativa frustrada; porém, abriu o campo para as pesquisas do inconsciente e para as poéticas modernistas, como o expressionismo e o surrealismo, além de representar um alerta que se fazia à nascente e crescente sociedade materialista.


No Brasil, onde o Parnasianismo dominava o cenário poético, a estética simbolista encontrou resistências, mas animou a criação de obras inovadoras. Desde o final da década de 1880 as obras de simbolistas franceses, entre eles Baudelaire e Mallarmé, e portugueses, como Antonio Nobre e Camilo Pessanha, vinham influenciando grupos como aquele que se formou em torno da Folha Popular, no Rio, liderado por Cruz e Souza e integrado por Emiliano Perneta, B. Lopes e Oscar Rosas. Mas foi com a publicação, em 1893, de Missal, livro de poemas em prosa, e Broquéis, poemas em versos, ambos de Cruz e Souza, que principiou de fato o movimento simbolista no país - embora a importância desses livros e do próprio movimento só tenha sido reconhecida bem mais tarde, com as vanguardas modernistas .


A poesia de Cruz e Souza segue bem a linha temática simbolista, indo do conflito matéria/espírito à busca de uma integração cósmica, à idéia da totalidade. Quanto ao aspecto formal, há a predominância e substantivos e o uso da sinestesia, ou seja, a mistura das sensações e dos sentidos humanos, mais uma vez com idéias de se atingir a totalidade, além, é claro, da preocupação com a sonoridade das palavras.

 

Cristais


Mais claro e fino do que as finas pratas
O som da tua voz deliciava...
Na dolência velada das sonatas
Como um perfume a tudo perfumava.
Era um som feito luz, eram volatas
Em lânguida espiral que iluminava,
Brancas sonoridades de cascatas...
Tanta harmonia melancolizava.
Filtros sutis de melodias, de ondas
De cantos voluptuosos como rondas
De silfos leves, sensuais, lascivos...
Como que anseios invisíveis, mudos,
Da brancura das sedas e veludos,
Das virgindades, dos pudores vivos.


A poesia de Alphonsus de Guimaraens, autor de Dona Mística, Setenário das Dores de Nossa Senhora, entre outros livros, se restringe praticamente à problemática da morte, influenciada talvez pela morte da prima Contanza, ainda jovem. De qualquer modo, o talento do poeta na exploração do tema se revela na atmosfera mística que cria, colocando-o entre os principais representantes da estética simbolista.


Cisnes brancos


Ó cisnes brancos, cisnes brancos,
Porque viestes, se era tão tarde?
O sol não beija mais os flancos
Da montanha onde morre a tarde.
O cisnes brancos, dolorida
Minh'alma sente dores novas.
Cheguei à terra prometida:
É um deserto cheio de covas.
Voai para outras risonhas plagas,
Cisnes brancos! Sede felizes...
Deixai-me só com as minhas chagas,
E só com as minhas cicatrizes.
Venham as aves agoureiras,
De risada que esfria os ossos...
Minh'alma, cheia de caveiras,
Está branca de padre-nossos.
Queimando a carne como brasas,
Venham as tentações daninhas,
Que eu lhes porei, bem sob as asas,
A alma cheia de ladainhas.
Ó cisnes brancos, cisnes brancos,
Doce afago de alva plumagem!
Minh'alma morre aos solavancos,
Nesta medonha carruagem...

 

Pré-Modernismo:

 

De 1894 a 1930, o Brasil viveu o período conhecido como República Velha, também chamada de República “Café-com-leite”, devido à alternância de políticos mineiros e paulistas no poder federal. À essa época, o país começa a querer entrar efetivamente na ordem do capital. Com o fim da política escravagista, inicia-se grande imigração européia, sobretudo de italianos e de alemães, para compor o quadro de mão-de-obra; a região sul/sudeste conhece um grande surto de urbanização. Como conseqüência, há um fortalecimento da classe média, composta de militares, profissionais liberais, funcionários públicos, além do surgimento de uma nova classe, a do proletariado. Com todo este quadro, o país se apercebe dos contrastes sócio-econômicos das diferentes regiões e populações. O Brasil urbano industrializa-se, opondo-se ao Brasil rural; da mesma forma que a região sul/sudeste se distancia economicamente da nordestina.

Em vista de tais disparates, ocorre revoltas por todo o Brasil, e no Nordeste, o cangaço torna-se forte; figuras no campo político-religioso, como os padres Cícero e Antonio Conselheiro, acabam por revelar a marginalização crescente daquela região que já fora a principal do país.

No campo literário, as três escolas anteriormente estudadas continuam a ter adeptos, mesmo com certo esvaziamento. De qualquer modo, nas duas primeiras décadas do século XX, começa a formar-se uma nova consciência da realidade nacional, e novas manifestações artísticas, estéticas, ajudarão a compor o ideário modernista, justamente por isto é que ao período entre 1902 e 1922, deu-se o nome de Pré-moderismo, termo criado pelo crítico Alceu Amoroso Lima em 1939, no livro Contribuição à história do Modernismo.

Não se pode falar, contudo, de escola pré-modernista, mas sim de um conjunto de escritores que, percebendo as transformações por que passavam o mundo e o país, procuraram dar uma nova forma à sua arte. Nesse quadro, destacam-se Euclides da Cunha, Graça Aranha, Augusto dos Anjos, Monteiro Lobato e Lima Barreto.

Apesar de se basear nas leis deterministas de Taine, o principal livro de Euclides da Cunha, Os Sertões (1902), tem o seu ponto forte na denúncia que fez do massacre que impôs o governo ao grupo liderado por Antônio Conselheiro no sertão baiano. O que parecia uma contra-revolução monarquista nada mais era que um drama vivido pelos nordestinos relegados à seca e à miséria, que viram em Antônio Conselheiro alguém capaz de tirar-lhes daquela situação.

O livro de Euclides é, pois, um estudo minucioso sobre as condições de vida do sertanejo, e tem como ponto alto a narração e a análise das quatro expedições que o exército brasileiro fez a Canudos a fim de derrotar Antonio Conselheiro e seus acólitos.

Em seu livro Canaã (1902), Graça Aranha trata da imigração alemã no Espírito Santo. Sua intenção é analisar dois posicionamentos diferentes do estrangeiro em relação ao Brasil, seu novo lar. De um lado aparece Lentz que acredita na lei da superioridade germânica sobre outros povos, demonstrando não querer integrar-se, relacionar-se com o país; de outro, vem Milkau que prega a harmonia universal, mesmo com a convivência de etnias diferentes.

A poesia de Augustos dos Anjos, autor praticamente de uma única obra de poesia, Eu e outras poesias (1912), segue tanto uma linha naturalista-parnasiana, bem como antecipa traços modernistas como a utilização de termos não poéticos, como “molécula”, “cigarro”, “diatomáceas”, etc.


Psicologia de um vencido


Eu, filho do carbono e do amoníaco
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia,
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme — este operário de ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida, em geral, declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Apesar dessa linguagem cientificista e escatológica, Augusto dos Anjos alcançou boa popularidade, a qual se deve, segundo Alfredo Bosi:

"ao caráter original, paradoxal, chocante mesmo, de sua linguagem, tecida de vocábulos esdrúxulos e animada de uma virulência pessimista sem igual em nossas letras. Entretanto, fosse o léxico exótico a única nota diferente desse livro, não teria ele recebido a atenção que a crítica mais inteligente e mais séria lhe dedicou e lhe tem dedicado. (...) Em Augusto dos Anjos, a palavra científica e o termo técnico, tradicionalmente prosaicos, não devem ser abstraídos de um contexto que os exigem e os justificam. Ao poeta do cosmos em dissolução, ao artista do mundo podre, fazia-se mister uma simbiose de termos que definissem toda a estrutura da vida (vocabulário físico, químico e biológico) e termos que exprimissem o asco e o horror ante essa mesma existência imersa no Mal".

Antes de ser grande escritor de literatura infantil com Sítio do Pica-pau Amarelo, Monteiro Lobato escreveu vários contos, reunidos em Urupês, Idéias de Jeca Tatu e Cidades mortas, em que tematiza a vida do homem do campo. Primeiro como vagabundo e indolente, depois, compreendendo as reais condições de sua vida, como alguém marginalizado pela sociedade urbana e pelos grandes proprietários rurais.

De todos escritores Lima Barreto é o que mais se aproxima da linguagem despojada e prosaica do modernismo. Em livros como Triste fim de Policarpo Quaresma procurou criticar o nacionalismo ufanista e as estruturas burocráticas do governo federal que massacra o indivíduo médio. Um outro ponto forte se seus livros é o retrato que faz dos subúrbios cariocas, como em Clara dos Anjos, e da vida republicana, como em Numa e Ninfa ou em Recordações do escrivão Isaías Caminha, seu primeiro romance.

 

Modernismo:

 

Ao final do século XIX, o mundo, em especial a Europa, conheceu um grande avanço científico e tecnológico que fez crer que se realizara a previsão dos Iluministas (século XVIII), em especial de Condorcet, que projetavam a felicidade suprema, ou quase, ao homem para quando ele se libertasse do irracionalismo, do obscurantismo e dominasse o conhecimento científico revertendo-o em tecnologia capaz de melhorar as condições de vida. Todo esse processo, em um primeiro momento, deu origem ao Naturalismo. Paris e Viena tornavam-se os centros culturais por excelência e, neste sentido, núcleos da Belle Époque.


De fato, a ciência realizara grandes avanços que possibilitaram à indústria se expandir e lançar invenções que revolucionariam radicalmente o mundo. Entre eles, pode-se citar, por exemplo, o rádio, o automóvel, o cinema, o telégrafo e o aeroplano. Além destes, já se dominava a eletricidade, enquanto que as locomotivas e os barcos a vapor faziam o transporte de produtos e pessoas muito mais rápido que as velhas carruagens ou caravelas. É o início da era da velocidade, da pressa e da imagem. As conquistas e inventos davam ao homem a doce ilusão de que ela já havia enfrentado seus grandes problemas e que agora seria o momento do desfrute.


O mundo, apesar de todas essas conquistas, não havia atingido ainda outra muito mais importante (como não atingiu até hoje): a da divisão da renda. Esta situação ocasionou vários protestos e greves fazendo que se expandissem idéias socialistas e anarquistas entre os operários. Com isto, o descontentamento não só atingia a relação capital/trabalho, mas também as relações comerciais entre as nações, e, em 1914, eclodia a 1ª Grande Guerra. Outro choque que abalaria a sociedade burguesa se daria em 1917: a Revolução Socialista na Rússia czarista. Toda esta agitação fez cair por terra afinal a utopia da Belle Époque e estremecer as verdades e crenças burguesas.


No campo artístico, o Naturalismo (século XIX) foi a escola que trouxe para a arte o racionalismo, o cientificismo. Para os naturalistas, a arte deveria ser uma extensão da ciência. Na poesia, o parnasianismo seguiu também as diretrizes do racionalismo procurando fazer uma arte mais ornamentária, por isto a preocupação maior residia na forma não no conteúdo, é “a arte pela arte”. Por outro lado, o Simbolismo anunciava a decadência do mundo burguês, propondo, ao contrário do racionalismo-naturalista, a redescoberta do eu-poético, do eu-metafísico.


Na filosofia, o francês Henri Bergson lançava a teoria intuicionista, pregando que o caminho para se determinar o que era o real era o da intuição e não o da razão. Enquanto isso, o psicanalista austríaco Sigmund Freud desenvolvia pesquisas sobre o subconsciente humano. Tudo isto possibilitava o ressurgimento do subjetivismo, ou seja, a visão pessoal do artista.


Essa efervescência sócio-política, econômica e cultural possibilitou o aparecimento de movimentos artísticos que refletiram e discutiram o caos e frenesi desses anos iniciais do século XX.


Tais movimentos ficaram conhecidos como vanguardas européias, que, de modo geral, representaram uma crítica às opressões causadas ao homem pela civilização industrial. Por outro lado, procuraram acompanhar a mudança do mundo trazendo para as manifestações artísticas a agitação da vida moderna, além de proclamar a necessidade de a arte tratar de temas modernos e não ficar preso, como fazia o Parnasianismo, ao mundo grego. As vanguardas se caracterizam pelo desejo de destruição do passado e pela visão crítica do presente.

Vários desses movimentos de vanguarda apareceram, dos quais cinco se destacam: futurismo, dadaísmo, expressionismo, cubismo e surrealismo.

 

 

Pós-Modernismo:

 

O Pós-Modernismo é o movimento em que nos encontramos hoje. Na verdade, tudo que foi produzido após o Modernismo é considerado trabalho pós-modernista. Talvez no futuro este período seja redividido em vários períodos. Até que seja, o Pós-Modernismo apresenta duas fases. A primeira fase corresponde a uma fase mais "séria e equilibrada", como diz José de Nicola, doque as tendências modernistas, especialmente na poesia. A prosa vive um momento semelhante à prosa modernista.

 

Na segunda fase surgem duas tendências na poesia: a poesia concreta e a poesia-máxis; veremos estas tendências mais tarde. Com o final da II Guerra Mundial e o bombardeamento norte-americana ao Japão, começa a era da Guerra Fria. Constroi-se o Muro de Berlin, a OTAN, a COMECON, etc... A queda do muro marcou o final da Guerra Fria.